Indagações

Do que é que se fala quando não temos nada para dizer?

Tive muitos sonhos, uns que fui deixando pelo caminho; outros que se foram formando. Hoje posso dizer que faço o que gosto, cheguei ao emprego de sonho. Mas tudo na vida tem o lado luz e sombra, essa dicotomia aplica-se a tudo.

A sombra da solidão, por vezes, rouba o brilho dos sonhos. Falar com centenas de pessoas, às vezes mais, às vezes menos. Menos de cinco em face to face. Menos de cinco por telefone.

Faço alguma coisa para mudar isso? Na verdade, pouco.

Uns telefonemas, às vezes.

Disponho-me para encontros presenciais. São os meus favoritos. Mas quase nunca se concretizam. A vida tem destas coisas. Somos todos muito ocupados.

Felizmente, encontrei a alma gémea há alguns anos e espero tê-la ao medo nesta caminhada. A luz dos meus dias.

Três dias. Três interacções sociais. Um café na praia, um encontro furtuito de cinco minutos, trocas comerciais, uma mochila perdida e encontrada. Isto conta?

Isto é a vida a acontecer. Encontros casuais, conversas de circunstância.

Uma mulher passa por mim, um pranto que vem profundo das entranhas. Dirigo-me a ela, ponho-lhe um braço por cima. Respire. Está tudo bem.

-Ele vai deixar-me, que vai ser de mim.

-E uma mulher com esses olhos verdes lá precisa de um homem que não queira estar com ela? Ama-te a ti em primeiro lugar.

A mochila apareceu. Chove, mas é hora de ir buscá-la e, talvez, beber um café numa esplanada coberta, vendo o mundo embaciado e turvo, à sombra de um inverno anunciado que esperamos breve.

Amor.

A ver o mar…

Disseram-me hoje que em Dublin é que se ganha dinheiro. Podia ganhar uns três mil euros mensais.

Hum.

Aqui há uns anos vim de França, ganhava aos dois mil euros por mês. Não ganhava mais, mas podia. Trabalho não qualificado rendia mais do que trabalho qualificado. Mas custava a exclusão da sociedade.

Hoje tenho o trabalho de sonho. Mas não comunico com ninguém presencialmente durante praticamente o dia todo. Tirando quando vou tomar café. Conversa de circunstância.

Com o melhor amigo.

Com os gatos. Também devia contar.

Redes socias, telefones e afins não contam. Esses são às dezenas. Foram às centenas. Milhares por semana.

Quase enlouqueci. Quase.

Porque é o meu sonho, enfrentei os dragões. Nem sempre danço com eles.

Houve Paris e era tão bom. Mesmo assim vim embora.

Valeu a pena.

Adoro ver o mar.

E Dublin podia ser uma oportunidade. Aqui ao lado.

Mas lá faz muito frio.

Iniciando…

Eventualmente este é mais um blog, mais um título pomposo – cheira a café, em inglês que tem mais pinta! Cheira a café porque o cheiro do café é daquelas memórias sensoriais de um bom despertar. Isso e o cheiro a pão a torrar ao lume barrado com manteiga Planta, fazia a mãe Nou nos tempos de infância, naquelas manhãs frias de Inverno. E quando chegava Dezembro, havia lugar para um grande pinheiro e um presépio com musgo verdadeiro povoado de soldadinhos, pastores, moinho, agricultores, cães, e todo um mundo de fantasia do mundo da miniatura que sobrevivesse às minhas mãos. Não sei se nesse tempo já pensava com clareza.

Iniciamos algo que nunca acabamos?

Talvez não. Ainda hoje é custoso.

E para ajudar o pensamento a fluir, as emoções a sarar, pensei novamente em consolidar memórias passando-as para aqui. Porque senão posso enlouquecer a tentar não esquecer.

Será que já enlouqueci?

Da janela da minha sala vejo o mar. Como é lindo o mar.

Um dia sonhei que um tsunami vinha e levava tudo. Tentava procurar um lugar seguro dentro da casa, vendo a destruição a aproximar, puxando os amigos gatos para mim. Não me conseguia mexer. E o cheiro a café foi-me trazendo a mim. Afinal tinha sido apenas um pesadelo.