Hoje vou abrir a alma e falar com o coração. Tenho uma vida feliz, nunca pensei chegar onde estou, mas sou inimiga de mim própria e nem sempre sei se mereço o que tenho.
Leio sites de mindfulness, auto-ajuda, terapia, yoga, meditação. Experimento artes, tento aceitar desafios como correr, tento cuidar de mim mas a verdade é que, no fim, acabo por me sabotar.
De onde vem isto?
Desde há muito tempo, não me lembro bem quando nem como. Deixei de gostar de mim. A imagem que tenho de mim própria envergonha-me. Não é que seja inaceitável, mas nao consigo aceita-la. Um excesso de gordura abdominal, nada exagerado. No entanto, desde sempre me impediu de ter uma barriga “normal”. Sempre teve aquele excesso, excedente que dobra em dois. Nada sexy. Adolescência foi uma merda por causa disso e do peito grande.
Depois vieram os 20. Fiz desporto, artes marciais, ginásio, dietas, comprimidos, anti-depressivos. E vieram os 30 e nunca vi a merda da barriga lisa. Obsessão.
E a poucos anos dos 40, sem filhos, com um homem que me ama e aceita, com o trabalho que quis, a viver junto à praia como sempre sonhei, e a obsessão e auto-sabotagem. Porque não consigo fazer por mim. Não consigo levantar-me, aproveitar o nascer do dia junto ao mar e dar uma corrida. Higiene mental. Adiada todos os dias.
Jejum intermitente. Leituras, vou agora escrever, vou fazer, vou sonhar, vou fumar um e a seguir outro e não vou a lado nenhum outra vez. Porque cheguei aqui, mas muitos amigos ficaram por aí.
As grandes cidades são fodidas. Tanta gente só e não tenho uma pessoa com quem me sinta à vontade para falar.
E o teu homem?
Acho que é demais. Não posso mais falar sobre isto porque seria sobrecarregar o outro com o peso da minha inércia. Porque raio se vai ele levantar e fazer algo que não quer? Para eu ter motivação e não ir sozinha?
Não vai aparecer ninguém.
A esta altura ja devia saber que nunca aparece ninguém. Sou eu e so eu. Controlar os pensamentos, levantar, calçar e ir. Porque não me consigo reconhecer no espelho e aceitar que a juventude está a ir embora. E o jejum intermitente nesta idade já nao funciona como há uns dez anos em que em dois ou três dias perdia 5 quilos. Continuava com a barriga. Ma alimentação.
Sabemos tudo e não fazemos nada. A seguir torturamos-nos porque sabemos disto e continua tudo igual.
Vou desistir?
Gostava de ter orgulho em mim e nem precisar de falar nisto, mas nem esse auto-controlo tenho e, então, em vez de ter essa consciência, ainda desabafo tudo isto logo de manhã antes dele ir trabalhar. Que raio de pessoa sou eu? Que adianta ler tanto, meditar, bla, bla bla….
Sinto que passo muito tempo sozinha e não é mentira. Trabalho de casa, falo usando as novas tecnologias, não vejo muito as pessoas. Uma vez por mês estou com a malta do trabalho, é como se fosse família.
A família está longe. Os amigos também não estão perto. Alguns estão perto, mas ou não são muito amigos, ou estão muito ocupados. Não sei se isso não é a mesma coisa. E os dias passam entre a auto-tortura, desabafos que fiz com o meu amor e não queria ter feito, e o trabalho no computador. 7 ou 8 horas, às vezes mais, dependendo se muito seguidas ou com algumas interrupções para beber café e fumar um.
E vem a hora de almoço e aproveito para continuar, bebo um café. Adianto o trabalho embrenhada em pensamentos até entardecer. Depois ocupo-me da casa, dos gatos, da roupa, da comida. Fumo outro. E é hora de jantar, ele vem a caminho. Não faço mais nada. E mais um dia, e não sai de casa, e não vi pessoas. Também não gosto de pessoas. E não fui correr.
Nem andar.
Instalei uma app, desinstalei. Instalei outra, e outra, e mais umas quantas com conselhos de alimentação, exercícios, dicas, enfim. Ha dias que não passo dos mil passos. A OMS recomenda dez mil. Nem andar, nem correr. Amorfa. E depois choro. E envergonho-me. Ciclo vicioso.
O monstro precisa de amigos? era o nome de uma canção.
Acho que preciso de ajuda, mas não sei como nem a quem pedir. Tenho vergonha. Podia ir a mil locais, fazer mil coisas, mas tenho vergonha. Tenho vergonha, não sei o que dizer, sinto-me corar quando falo com os outros, sinto vontade de me esconder e assim vejo os dias passar. A verdade é que há dias que só quero que a noite chegue para poder dormir e não ter de pensar ou lidar com o mundo, pessoas, realidade.
Também sei que é melhor escrever e evitar de todo o que aconteceu hoje. Não discutimos, mas não quero que ele faça nada por mim só porque sabe que me sinto assim. As pessoas devem fazer o que querem e não sentir-se condicionadas porque os outros têm problemas com eles próprios. Não quero prejudicar quem amo ou pressionar quem amo porque não atino desta cabeça.
E por isso vou escrever sem pensar, sem julgamentos, a nu. Não vou desistir de mim, nem de nós.