Gratidão

Sou grata por tudo o que tenho, pelo ar que respiro, pela saúde e liberdade de que usufruo. Sou grata pelo amor que recebo. Sou grata por ter um tecto, por ter comida, por ter a possibilidade de apreciar a mãe Natureza. Sou grata pelos meus gatos e pela companhia que me fazem. Sou grata por ter amigos desde infância, sou grata pela felicidade deles. Sou grata por ter uma família que me ama e me deu sempre tudo. Sou grata pelos ensinamentos que tive. Sou grata por ter nascido mulher, sou grata por respirar este ar puro e poder sentir o sol quente na pele.

Sou grata por não passar fome, ter acesso a água potável, luz, gás. Sou grata por ter roupas e não passar frio. Sou grata por tudo o que tenho e que é mais do que tudo o que preciso.

Sou grata pelo amor que recebo diariamente. Sou grata pelos sorrisos que recebo. Sou grata pelo trabalho que tenho e sou grata pela satisfação que ele me dá.

Sou grata por todas as oportunidades que tive, pelas aprendizagens e dores que me fizeram crescer.

Sou grata por ter ao meu lado uma pessoa que amo e me respeita, que me ensina todos os dias a amar-me. Sou grata por poder tirar este tempo e partilhar online o amor que tenho no coração.

Sou grata pelo conforto e por tudo o que me rodeia. Dias houve em que me faltou tudo isto, embora não de uma vez e chorei não ter agradecido, reconhecido como a vida era tão boa. A vida é boa.

Sou grata por ter um colchão limpo e confortável onde me posso deitar descansada. Sou grata pela segurança, pela paz e relativa estabilidade social. Sou grata pela vida e desejo a todos, do fundo do meu coração, uma vida longa e próspera.

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Ontem passei o dia a chorar. Angustiada. A sensação de ter a garganta presa e uma dor inexplicável de ver o tempo passar e nos sentirmos impotentes. Pensar menos e agir. Mas logo surge o eu… E angustio-me por ver os outros angustiados a quererem dar-me a mão.

O que precisas?

Nem eu sei.

Ou sei?

Onde fiquei?

A vida a acontecer deu-me e tirou-me. A solidão de estar comigo só e os amigos gatos, mas nenhum como o que partiu prematuramente por erro de veterinários exploradores. E choro.

Gosto de sair, adoro música, adoro dançar, conviver, conversar. Isso é o que me falta e fui perdendo. Primeiro ganhei o país de novo, depois a casa e a praia, depois o trabalho. No caminho foram ficando as pessoas. Longe ou ocupadas, outras vezes desligadas.

E o que fazes para contrariar isso?

Vou fazendo, mas não gosto de me “impor” ou “andar atrás” dos outros. Depois acontece ainda recorrentemente que quando a relação “aumenta”, com visitas, jantares em casa, saídas, envolve sempre algum interesse e desvanecem rapidamente. Assumo a minha responsabilidade. Abro o coração com facilidade tal é a carência que tenho sentido, e acaba sempre com a corda a esticar e a partir. Fretes profissionais recusados por questões de ética – dar formação em matérias que não domino, nunca estudei, e sem contacto profissional? ter de preparar os dossiers (com base em quê?), planos de sessão, aulas, para ir dois dias, 5 horas, 15 euros por hora, falar do que não sei?

Podemos falar melhor sobre isto?

Ambiente tenso, muda de assunto. Um compasso de espera antes de dizer algo banal como, bem, está a ficar tarde, vou andando.

Ainda enviei duas mensagens. Nunca obtive resposta. Passaram duas semanas.

Depois desta, ainda tentei retornar ao desporto. Sexta feira ao fim de tarde encontramos a malta no supermercado e combinamos de ir no treino no dia seguinte. Isso condicionou logo o sábado, não íamos falhar. Vinte minutos antes do treino, vesti a roupa e saí logo, atravessei a cidade armada em capoeirista. Chegados ao local do treino, nem alma. Na associação decorria uma festa de crianças. E eu ali de chinelos, frio do cacete, vestida a rigor. Esperamos, esperamos, demos a volta ao quarteirão, voltamos. Nada.

Abalamos para casa, devagar na expectativa de ver alguém, mas nada, nem ninguém.

E passou um dia, veio o domingo choroso e frio. Dia de arrumar a casa, ver um filme na tv. O sofá como extensão do meu corpo. Aqui como, trabalho, descanso, durmo às vezes.

Espero que na próxima encarnação eu nasça um gato.

Do sofa escrevo para desabafar.

Ontem foi um dia mau, passo muito tempo sozinha. Ele vem à noite, quer passar tempo em casa.

Organizo-me, 08 da manhã estou a tomar banho, às 9 começam a sair os primeiros emails. A reunião é às 10.

Falo com os colegas através dos meios usuais. Respondem, mas não vejo nenhum grupo para a reunião. Ele sai, despeço-me. Começo a ficar ansiosa. Desligo tudo. Tenho o caderno ao lado, o telefone, o computador e tudo aberto.

Passam dez minutos. Tic, tac, tic, tac.

Passam 20 minutos…

Uma hora.

Love. Não estavas na meeting. Reparei apenas a meio da conversação que não foste adicionada, nem estás no grupo do skype.

O grupo de trabalho foi criado pelos managers, talvez não faça sentido.

Pequeno briefing, partilho algum material.

Sinto-me só e agarro-me a esta página em branco para que a angústia não volte a tomar conta de mim. Acho às vezes que preciso de ajuda, mas custa-me admitir e não sei como o fazer. Penso no que EU posso fazer mas não sei se isso me parece real. Por exemplo, podia inscrever-me aqui no ginásio à porta de casa, ir a aulas de grupo 1 hora por dia, para ver pessoas e soltar energia. Mas depois falta a coragem, tenho vergonha não sei bem de quê mas tenho e por isso a noite é a melhor parte do dia porque posso ir para a cama, fechar os olhos e não pensar em nada.


Respeito à Mãe Natureza

O Sol queima a pele. Estranha sensação para Março e já desde alguns anos que é assim.

Presumo que seja global. As repercussões dos danos infligidos à mãe Natureza a serem devolvidos e a fazerem-se sentir. E afecta cada um de nós. Põe em causa o futuro individual e colectivo da humanidade como a conhecemos.

Que planeta vamos deixar às gerações futuras? Qual o peso das nossas acções? Hoje os jovens de todo o mundo/estudantes fizeram uma manifestação a pedir medidas efectivas que promovam a sustentabilidade do planeta. Mas começa em cada um.

Não é confortável estar ao sol. Abrasa. A sensação é estranha. Does not feel good. O mar e a sua aparente calma. Um impossível dia de Verão.

Não devíamos todos ter medo?

Separar o lixo, mas acima de tudo reduzir o consumo de tudo o que envolva plástico. Preferir o natural, local, biológico sempre que possível, orgânico. A carne e o peixe deixei. Ainda não aboli completamente mas deixaram de fazer parte das refeições diárias, entrando apenas ocasionalmente em ambiente de festa. Stop à fast fashion. Comprar com consciência, saber de onde vem o que levamos para casa para consumir/vestir/utilizar.

Gostava que no amanhã pudéssemos viver em harmonia com a Natureza e toda a sua beleza esplendorosa.

E tu?

Eu aos pedaços

Hoje foi um dia diferente do qual ainda estou a apanhar pedaços de mim. Nessa luta inglória de me conquistar re-descubro-me.

Mudar o mindset não é fácil e a sensação de sermos menos merecedores, menos bonitos, menos inteligentes, menos queridos.

Recomeça sem pressas. Passo a passo. Como quando descobrimos alguém pela primeira vez.

Tomar decisões, assumir responsabilidades, olhar ao espelho, enfrentar o mundo. Senti-me bem a ser eu no comando, sem medos ou falta de confiança. Sem excesso dela também.

Há palavras que curam. Sentir apoio do outro lado, ainda que invisível, soube bem. Por ser invisível soube ainda melhor.

Sentir a vida, sentir-me viva e ter objetivos. Pensar menos porque pensar muito faz mal.

E se a vida nem sempre sorri, também isso não vai durar sempre. Assim como o sol e os dias bons. Mas hoje é um dia bom. O sol brilha e queima, o mar lambe a costa numa calma aparente, e o amor parece andar no ar.

Muito Amor a todos


Viagem Interior

12-03-2019 junto à costa atlântica sentei e senti

Isto deve ter começado quando era muito criança, tão criança que não consigo recordar.

Uma foto minha com 8 anos onde me reconheci, levou-me para tempos dos quais tenho vagas memórias, mas cujas imagens não podiam estar mais longe, pese embora me tenha reconhecido.

Não sei de onde vem esta característica de personalidade auto-destrutiva e dependente. E o conflito interno de não querer ser assim. A necessidade de ser amada acima de tudo por alguém que cuidasse de mim. Hoje, pensando profundamente, e porque 36 não são 16 nem 26, sinto que isto vem de muito longe, de um tempo que escondi no subconsciente e que me leva a lugares de dor/amor.

A auto-sabotagem acontece porque vivemos e sentimos coisas do passado, o que faz com que elas estejam permanentemente a acontecer levando a um ciclo repetitivo. Agimos assim porque é a realidade que conhecemos, que programamos mentalmente e que nos é confortável, em certa medida. Achamos que esta dor é a que conhecemos, será mais fácil de suportar do que a não conhecemos.

O que aconteceu para ter essa necessidade de alguém, essa dependência de alguém, a necessidade de agradar e de ter quem seguir ou quem “assuma” as responsabilidades. Porque é que não me amo e tomo conta de mim?

Quando tinha 13 anos conheci um rapaz de 23 anos e apaixonei-me. Queria que ele me levasse com ele. Para onde? Para onde ele quisesse, desde que me abraçasse e protegesse. Do quê? Do mundo e dos problemas em casa. E o pior aconteceu e ninguém me protegeu. As coisas em casa apenas piorariam. E a necessidade cresceu. Com a raiva. Hoje acredito não ser mais assim, mas a verdade é que isto vem de ainda antes dessa noite onde perdi toda a inocência e vi a adolescência chegar como um inferno. Vem de antes.

Os sentimentos são de abandono, não ser merecedora de amor, ser uns estorvo. Não é bom.

Contra as minhas próprias expectativas, com ajudas externas, com muito amor e compreensão, venci-me e não me destruí. Estive perto, muitas vezes. E de destruir quem estava a meu lado e as relações.

Podia ter sofrido menos, mas não teria aprendido tanto. Hoje sinto até alguma vergonha do que fui. E isso também não é bom. Continuo a não ter muita compaixão por mim. Como se merecesse ter sofrido ou ser mal-tratada.

O caminho é longo.

O novo plano é alterar isto, assumir o controlo, tomar conta de mim, sentir compaixão e ser minha amiga.

Hoje de manhã voltei a não ir correr. Acordei 2 horas antes do planeado. A verdade? tenho medo de ir sozinha. O calçadão é deserto, o mar logo ali ao lado e tenho medo. Confesso. Tenho medo porque ouvi também de historias de raparigas que desapareceram e apareceram mortas/violadas. Volta o sentimento do medo/necessidade de outro/dependência.

Vou mais tarde, alterar os planos, mas não vou desistir de mim.


Nu

Hoje vou abrir a alma e falar com o coração. Tenho uma vida feliz, nunca pensei chegar onde estou, mas sou inimiga de mim própria e nem sempre sei se mereço o que tenho.

Leio sites de mindfulness, auto-ajuda, terapia, yoga, meditação. Experimento artes, tento aceitar desafios como correr, tento cuidar de mim mas a verdade é que, no fim, acabo por me sabotar.

De onde vem isto?

Desde há muito tempo, não me lembro bem quando nem como. Deixei de gostar de mim. A imagem que tenho de mim própria envergonha-me. Não é que seja inaceitável, mas nao consigo aceita-la. Um excesso de gordura abdominal, nada exagerado. No entanto, desde sempre me impediu de ter uma barriga “normal”. Sempre teve aquele excesso, excedente que dobra em dois. Nada sexy. Adolescência foi uma merda por causa disso e do peito grande.

Depois vieram os 20. Fiz desporto, artes marciais, ginásio, dietas, comprimidos, anti-depressivos. E vieram os 30 e nunca vi a merda da barriga lisa. Obsessão.

E a poucos anos dos 40, sem filhos, com um homem que me ama e aceita, com o trabalho que quis, a viver junto à praia como sempre sonhei, e a obsessão e auto-sabotagem. Porque não consigo fazer por mim. Não consigo levantar-me, aproveitar o nascer do dia junto ao mar e dar uma corrida. Higiene mental. Adiada todos os dias.

Jejum intermitente. Leituras, vou agora escrever, vou fazer, vou sonhar, vou fumar um e a seguir outro e não vou a lado nenhum outra vez. Porque cheguei aqui, mas muitos amigos ficaram por aí.

As grandes cidades são fodidas. Tanta gente só e não tenho uma pessoa com quem me sinta à vontade para falar.

E o teu homem?

Acho que é demais. Não posso mais falar sobre isto porque seria sobrecarregar o outro com o peso da minha inércia. Porque raio se vai ele levantar e fazer algo que não quer? Para eu ter motivação e não ir sozinha?

Não vai aparecer ninguém.

A esta altura ja devia saber que nunca aparece ninguém. Sou eu e so eu. Controlar os pensamentos, levantar, calçar e ir. Porque não me consigo reconhecer no espelho e aceitar que a juventude está a ir embora. E o jejum intermitente nesta idade já nao funciona como há uns dez anos em que em dois ou três dias perdia 5 quilos. Continuava com a barriga. Ma alimentação.

Sabemos tudo e não fazemos nada. A seguir torturamos-nos porque sabemos disto e continua tudo igual.

Vou desistir?

Gostava de ter orgulho em mim e nem precisar de falar nisto, mas nem esse auto-controlo tenho e, então, em vez de ter essa consciência, ainda desabafo tudo isto logo de manhã antes dele ir trabalhar. Que raio de pessoa sou eu? Que adianta ler tanto, meditar, bla, bla bla….

Sinto que passo muito tempo sozinha e não é mentira. Trabalho de casa, falo usando as novas tecnologias, não vejo muito as pessoas. Uma vez por mês estou com a malta do trabalho, é como se fosse família.

A família está longe. Os amigos também não estão perto. Alguns estão perto, mas ou não são muito amigos, ou estão muito ocupados. Não sei se isso não é a mesma coisa. E os dias passam entre a auto-tortura, desabafos que fiz com o meu amor e não queria ter feito, e o trabalho no computador. 7 ou 8 horas, às vezes mais, dependendo se muito seguidas ou com algumas interrupções para beber café e fumar um.

E vem a hora de almoço e aproveito para continuar, bebo um café. Adianto o trabalho embrenhada em pensamentos até entardecer. Depois ocupo-me da casa, dos gatos, da roupa, da comida. Fumo outro. E é hora de jantar, ele vem a caminho. Não faço mais nada. E mais um dia, e não sai de casa, e não vi pessoas. Também não gosto de pessoas. E não fui correr.

Nem andar.

Instalei uma app, desinstalei. Instalei outra, e outra, e mais umas quantas com conselhos de alimentação, exercícios, dicas, enfim. Ha dias que não passo dos mil passos. A OMS recomenda dez mil. Nem andar, nem correr. Amorfa. E depois choro. E envergonho-me. Ciclo vicioso.

O monstro precisa de amigos? era o nome de uma canção.

Acho que preciso de ajuda, mas não sei como nem a quem pedir. Tenho vergonha. Podia ir a mil locais, fazer mil coisas, mas tenho vergonha. Tenho vergonha, não sei o que dizer, sinto-me corar quando falo com os outros, sinto vontade de me esconder e assim vejo os dias passar. A verdade é que há dias que só quero que a noite chegue para poder dormir e não ter de pensar ou lidar com o mundo, pessoas, realidade.

Também sei que é melhor escrever e evitar de todo o que aconteceu hoje. Não discutimos, mas não quero que ele faça nada por mim só porque sabe que me sinto assim. As pessoas devem fazer o que querem e não sentir-se condicionadas porque os outros têm problemas com eles próprios. Não quero prejudicar quem amo ou pressionar quem amo porque não atino desta cabeça.

E por isso vou escrever sem pensar, sem julgamentos, a nu. Não vou desistir de mim, nem de nós.