Ontem passei o dia a chorar. Angustiada. A sensação de ter a garganta presa e uma dor inexplicável de ver o tempo passar e nos sentirmos impotentes. Pensar menos e agir. Mas logo surge o eu… E angustio-me por ver os outros angustiados a quererem dar-me a mão.
O que precisas?
Nem eu sei.
Ou sei?
Onde fiquei?
A vida a acontecer deu-me e tirou-me. A solidão de estar comigo só e os amigos gatos, mas nenhum como o que partiu prematuramente por erro de veterinários exploradores. E choro.
Gosto de sair, adoro música, adoro dançar, conviver, conversar. Isso é o que me falta e fui perdendo. Primeiro ganhei o país de novo, depois a casa e a praia, depois o trabalho. No caminho foram ficando as pessoas. Longe ou ocupadas, outras vezes desligadas.
E o que fazes para contrariar isso?
Vou fazendo, mas não gosto de me “impor” ou “andar atrás” dos outros. Depois acontece ainda recorrentemente que quando a relação “aumenta”, com visitas, jantares em casa, saídas, envolve sempre algum interesse e desvanecem rapidamente. Assumo a minha responsabilidade. Abro o coração com facilidade tal é a carência que tenho sentido, e acaba sempre com a corda a esticar e a partir. Fretes profissionais recusados por questões de ética – dar formação em matérias que não domino, nunca estudei, e sem contacto profissional? ter de preparar os dossiers (com base em quê?), planos de sessão, aulas, para ir dois dias, 5 horas, 15 euros por hora, falar do que não sei?
Podemos falar melhor sobre isto?
Ambiente tenso, muda de assunto. Um compasso de espera antes de dizer algo banal como, bem, está a ficar tarde, vou andando.
Ainda enviei duas mensagens. Nunca obtive resposta. Passaram duas semanas.
Depois desta, ainda tentei retornar ao desporto. Sexta feira ao fim de tarde encontramos a malta no supermercado e combinamos de ir no treino no dia seguinte. Isso condicionou logo o sábado, não íamos falhar. Vinte minutos antes do treino, vesti a roupa e saí logo, atravessei a cidade armada em capoeirista. Chegados ao local do treino, nem alma. Na associação decorria uma festa de crianças. E eu ali de chinelos, frio do cacete, vestida a rigor. Esperamos, esperamos, demos a volta ao quarteirão, voltamos. Nada.
Abalamos para casa, devagar na expectativa de ver alguém, mas nada, nem ninguém.
E passou um dia, veio o domingo choroso e frio. Dia de arrumar a casa, ver um filme na tv. O sofá como extensão do meu corpo. Aqui como, trabalho, descanso, durmo às vezes.
Espero que na próxima encarnação eu nasça um gato.
Do sofa escrevo para desabafar.
Ontem foi um dia mau, passo muito tempo sozinha. Ele vem à noite, quer passar tempo em casa.
Organizo-me, 08 da manhã estou a tomar banho, às 9 começam a sair os primeiros emails. A reunião é às 10.
Falo com os colegas através dos meios usuais. Respondem, mas não vejo nenhum grupo para a reunião. Ele sai, despeço-me. Começo a ficar ansiosa. Desligo tudo. Tenho o caderno ao lado, o telefone, o computador e tudo aberto.
Passam dez minutos. Tic, tac, tic, tac.
Passam 20 minutos…
Uma hora.
Love. Não estavas na meeting. Reparei apenas a meio da conversação que não foste adicionada, nem estás no grupo do skype.
O grupo de trabalho foi criado pelos managers, talvez não faça sentido.
Pequeno briefing, partilho algum material.
Sinto-me só e agarro-me a esta página em branco para que a angústia não volte a tomar conta de mim. Acho às vezes que preciso de ajuda, mas custa-me admitir e não sei como o fazer. Penso no que EU posso fazer mas não sei se isso me parece real. Por exemplo, podia inscrever-me aqui no ginásio à porta de casa, ir a aulas de grupo 1 hora por dia, para ver pessoas e soltar energia. Mas depois falta a coragem, tenho vergonha não sei bem de quê mas tenho e por isso a noite é a melhor parte do dia porque posso ir para a cama, fechar os olhos e não pensar em nada.