Indagações

Do que é que se fala quando não temos nada para dizer?

Tive muitos sonhos, uns que fui deixando pelo caminho; outros que se foram formando. Hoje posso dizer que faço o que gosto, cheguei ao emprego de sonho. Mas tudo na vida tem o lado luz e sombra, essa dicotomia aplica-se a tudo.

A sombra da solidão, por vezes, rouba o brilho dos sonhos. Falar com centenas de pessoas, às vezes mais, às vezes menos. Menos de cinco em face to face. Menos de cinco por telefone.

Faço alguma coisa para mudar isso? Na verdade, pouco.

Uns telefonemas, às vezes.

Disponho-me para encontros presenciais. São os meus favoritos. Mas quase nunca se concretizam. A vida tem destas coisas. Somos todos muito ocupados.

Felizmente, encontrei a alma gémea há alguns anos e espero tê-la ao medo nesta caminhada. A luz dos meus dias.

Três dias. Três interacções sociais. Um café na praia, um encontro furtuito de cinco minutos, trocas comerciais, uma mochila perdida e encontrada. Isto conta?

Isto é a vida a acontecer. Encontros casuais, conversas de circunstância.

Uma mulher passa por mim, um pranto que vem profundo das entranhas. Dirigo-me a ela, ponho-lhe um braço por cima. Respire. Está tudo bem.

-Ele vai deixar-me, que vai ser de mim.

-E uma mulher com esses olhos verdes lá precisa de um homem que não queira estar com ela? Ama-te a ti em primeiro lugar.

A mochila apareceu. Chove, mas é hora de ir buscá-la e, talvez, beber um café numa esplanada coberta, vendo o mundo embaciado e turvo, à sombra de um inverno anunciado que esperamos breve.

Amor.

Iniciando…

Eventualmente este é mais um blog, mais um título pomposo – cheira a café, em inglês que tem mais pinta! Cheira a café porque o cheiro do café é daquelas memórias sensoriais de um bom despertar. Isso e o cheiro a pão a torrar ao lume barrado com manteiga Planta, fazia a mãe Nou nos tempos de infância, naquelas manhãs frias de Inverno. E quando chegava Dezembro, havia lugar para um grande pinheiro e um presépio com musgo verdadeiro povoado de soldadinhos, pastores, moinho, agricultores, cães, e todo um mundo de fantasia do mundo da miniatura que sobrevivesse às minhas mãos. Não sei se nesse tempo já pensava com clareza.

Iniciamos algo que nunca acabamos?

Talvez não. Ainda hoje é custoso.

E para ajudar o pensamento a fluir, as emoções a sarar, pensei novamente em consolidar memórias passando-as para aqui. Porque senão posso enlouquecer a tentar não esquecer.

Será que já enlouqueci?

Da janela da minha sala vejo o mar. Como é lindo o mar.

Um dia sonhei que um tsunami vinha e levava tudo. Tentava procurar um lugar seguro dentro da casa, vendo a destruição a aproximar, puxando os amigos gatos para mim. Não me conseguia mexer. E o cheiro a café foi-me trazendo a mim. Afinal tinha sido apenas um pesadelo.